sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Prosa Poética - poesia sem lugar

Foi há muitos anos. Quase trinta. Escrevi um conto – que não era bem um conto. De pontuação estranha. Não fazia jeito de escrita institucionalizada. Inscrevi num concurso – na Academia Municipalista de Letras de Belo Horizonte – e ganhou... menção honrosa.
Tinha também um livro – do qual o conto que não era conto fazia parte: Pierrô sem máscara – um dedo de prosa poética. Inscrevi pretendendo um financiamento da Coordenadoria de Cultura de Minas. Foi aprovado. Editora e livraria querendo publicar. Mandei um exemplar pra Adélia Prado, pra ver se ela prefaciava. Devolveu, disse que não: o editor dela não permitia prefaciar.
Li, reli. Dentro de mim, algo decidiu que não. Era preciso viver mais.
Um tempo depois levei a um editor, no Rio. Ele disse que não: seria difícil editar porque não era poesia e não era prosa, seria difícil enquadrar, encontrar lugar onde colocar, estante.
Fiquei assim pensando que prosa poética – até então eu não ouvira esse termo, nem vira aquele intento – não tinha lugar. Mas, poesia é mesmo essa coisa sem lugar, que cabe em toda parte, no dentro, no fora. Sua natureza talvez seja mesmo esta: a do improvável, sendo, dando sentido ao tudo, ao nada.
Hoje resolvo revisitar. Não o tempo que o tempo não se revisita. Mas o propósito, o intento, a escrita. Gosto de não ter publicado. De ter escolhido... viver mais. Ainda quero, viver mais. Assim, fisgada pela poesia. Que quando não tem deixa aspereza demais. No texto. Na prosa. Na vida.
Começo a recontar. Contos que não são contos. Prosa que não é prosa. Poética. Poesia.
Encontrará, talvez, lugar na estante? Importa mais o lugar interno: esse onde se aloja a poesia, de onde ela brota, onde ela mora e se aninha. E se há lugar, no dentro, então haverá no fora. Que é só espelho, reflexo. Projeção. Projeto: prosa poética. Poesia sem lugar. Na estante. Cabível. Em espaços mais vivos. Talvez. Menos estanques.
Quero encontrar a página. Aberta. Essa que fica ao lado, quando me deito.
Ruminando silenciosa. Quando de mim me perco. E me colhendo de volta. Quando a ela, retorno.
Será a alma que fica ali, espiando, se esgueirando, à cata da poesia? Ou será ela, a poesia, a própria alma, ali, esgueirada, se espichando no espio?
Poesia tem assim esse gosto de pergunta fresca. Sem resposta. Calando tudo. Que nem beijo. Arfado.

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