Há algum tempo, não muito, prometi para a articuladora de uma ONG que trata da questão de animais abandonados que escreveria uma coluna para seu site, intitulada “Sobre bichos e homens”. Na época eu falara de um gato que aparecera à minha porta, miando desesperadamente, noite após noite. Tentei fazer ouvido de mercador; não deu: ele pertence a uma espécie que foi denominada “gatos que miam demais”. E eu, a uma espécie que escuta miados. Escutei.
Mas, não queria que ele entrasse na minha vida. Não queria me envolver. Não queria amá-lo. Não queria ser dona dele. Não queria tê-lo. Não queria vê-lo. Eu não o queria. Pensava em mim: não queria. E nem me ocorreu que ele, na verdade, pertence a si mesmo, à sua própria vida.
Nas noites inquietas em que o ouvia, pensava: lá vem de novo o gatuno... Vi que estava dando a ele um nome e que o nome embora pudesse soar adequado a um gato que estava roubando minha paz e meu sono, era um nome ruim, predador. Decidi procurar um nome mais adequado e de conotação mais positiva – dado que os miados dele já haviam invadido meu recolhimento.
Pensei que ele miasse de fome. Comecei a deixar uma vasilha com comida e água. Nada. Ele continuava miando.
Olhado de longe parecia arisco, um gato preto de belo porte, olhos verdes e movimentação inquieta. Resolvi descer de meu sossegado quarto no segundo pavimento – que estava sem paz sob os miados insistentes e pensei: se ele me deixar me aproximar, dou um jeito de cuidar dele. Não deu outra: chamei, fiquei parada olhando e lá veio ele, de leve, chegando aos poucos, como os gatos sabem chegar. Roçou minha perna como fazem nossos gatos de estimação, próximos, conhecidos; íntimos até.
Subi danada da vida, pois estava fisgada. Com duas gatas que são uma história à parte eu não queria novo gato! E agora lá estava eu pensando nele – o gatuno! Não. Já resolvera que não seria um nome pejorativo. E então o nome veio, claro, limpo, bonito: Petrônio. O belo gato preto. Ganhou, assim, nome nobre: do árbitro das elegâncias romanas, na corte de Nero.
Na noite seguinte desci com minha sobrinha, colocamos Petrônio na caixa de uma das gatas (que usamos para transporte). Deixamos preso, com comida e água. Dentro de casa. Ele continuou miando – tanto quanto miava lá fora.
Escutei até certa hora, depois dormi. Não sem antes notar que se os miados dele lá fora me incomodavam, agora, cá dentro, deixavam um calor no meu peito, querendo ser alegria – ou, alegria sendo.
Dia seguinte, levei-o à veterinária. No exame ele se comportou otimamente: nenhum miado, nenhuma queixa enquanto era tocado, apertado – pra ver se tinha alguma dor. Nada. Nenhuma. Voltou vacinado, vermifugado, de banho tomado e com data marcada para a castração. Ah, sim, claro: seria castrado, não só pra se tornar mais doméstico e parar de brigar na rua – como depunham seus arranhões – mas, principalmente para não continuar a povoar o mundo de gatos abandonados que miam à noite interrompendo sonos. Sensíveis ao sofrimento.
Preso em casa, pra se acostumar a um lar, Petrônio se comportava bem. Se espreguiçava ao sol. Comia. Dormia. Ronronava. Miava.
No primeiro dia fez um rebosteio na caixa de areia, sobre o jornal: fez as necessidades no jornal, espalhou a areia. Demos risada: Petrônio era caipira, não sabia usar o banheiro. E então ele surpreendeu: no dia seguinte já o usava com maestria!
Mas, miava, miava... miava; de dia e de noite. Parava quando eu me sentava ao lado, conversava com ele, dava um cafuné. Mas, daí a pouco lá estava ele, de novo, miando. Conclui que ele de fato pertence à espécie de gatos que miam demais!
Feita a castração e passados os dias de repouso, deixamos a janela aberta. Ele saiu, andou lá fora, voltou. Como fazem nossas gatas. Passamos a deixar a janela aberta. E... zás! Petrônio saiu e parecia que não voltaria mais. Dois, três dias... e lá estava ele, na madrugada, miando debaixo da janela. De novo! Fiquei irada. Cobri a cabeça com o travesseiro, prometi usar tampões nos ouvidos. Nada adiantou. Desci, abri a janela. Ele entrou. Fiquei olhando, sem falar nada. Coloquei comida. Comeu. Bebeu água. Convidei-o a ir embora. Saiu.
Ás vezes deixo comida na janela. Ele nem come. Mia. De vez em quando desço, falo com ele. Dou comida. Outras, ignoro: pois que mie! É seu mecanismo de chamar, de dizer quero atenção, tou aqui, e coisa e tal. Quando tou afim, desço, converso, rio. Desse gato maluco.
Tentamos achar uma casa pra ele: não deu certo. O pretendente mais forte, amigo de minha sobrinha, foi interditado pela mãe, que vetou a adoção.
Achava – e ainda acho – que num lugar novo, onde ele não estivesse acostumado a vadiar, poderia tornar-se um gato caseiro. Tentei que minha sobrinha o levasse para o sítio; não aconteceu.
Por vezes é minha filha quem o acolhe: abre a porta, põe comida; acompanha os movimentos dele – rolando pelo chão, curtindo a casa, a barriguinha cheia, o aconchego. Às vezes escuto: ela falando com ele. E então, vai embora.
Ficou assim, nossa história com Petrônio: um amigo boêmio, que chega de madrugada, faz serenata. Se abrimos a porta ele entra, mata as saudades, se abastece com um pouquinho de humanidade. E vai embora. Por vezes recebe apenas comida. Se não abrimos a porta ele se vai, até uma próxima volta. De minha parte, ainda que capturada pelo afeto deixo que ele siga. E me torno um pouco mais livre.
Assim. Que nem ele.
Ah, antes que me esqueça de dizer: Petrônio tornou-se meu gato predileto. Representante de uma nova espécie de amor, livre e tardio, da maturidade.
O projeto com a ONG não vingou. Mas, a escrita sobre bichos e homens está rolando assim: livre, soltinha. Com leveza, poesia. E prosa.
Inda agora escuto: Petrônio mia, lá fora. Com licença: estou indo abrir a janela! rsrsrs
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