segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Estados do ser

Pele: uma primeira dimensão se revela. Súbita? Assim vista, parece, pela primeira vez. Sendo.
Um toque leve acorda sensações. Diversas. Observo os matizes, tonalidades, intensidades. Se revelando: como se abrindo outras caixas. De impressões. Percepções. Novas. Novos horizontes. Dos sentidos. Um toque soa: acorda também o ouvir. Acordes. Cordas. Fibras. Tudo soa e ressoa. Ao toque. A um leve toque. E memórias. Gostos, sabores; saberes. Paladares e aromas. Algo em mim sabe. Mas, esse saber é anterior ao agora. Aqui. Em branco, sem referências prévias. Tudo é silêncio. Por detrás do toque. De seu tom. Por detrás da memória.
Aqui tudo se abre em simplicidade: síntese.

sábado, 26 de novembro de 2011

Agora

Ele me instiga a que escreva agora, no presente, ao invés de resgatar textos antigos, numa revisão e releitura.
Entendo o propósito. Estio. Olho pela janela. Lá fora, nublagens. Aqui dentro o texto rumina: agora!
Percorro a linha do tempo: passado - foi-se, lembra foice, o que foi cortado. Vive nos fios da memória. Futuro, o vir a ser, porvir, o ainda não dado. A vivência imaginária: pode ser, que seja, pode não ser; não sei.
O agora junta os fios do tempo: é quando chega o que vinha e se encontra com o que é, está sendo. Revisitado, de novo, novo sendo, ou acontecendo: presente. O que se abre, no momento, esse, exato.
E o que muda tudo, faz diferença, é a qualidade com que se abre esse momento: curto, preciso, precioso, exato.
É ele e só ele o que tenho, nesse momento. O mais já foi, ou não virá.
No entanto, quando o tenho assim, apreendido, no instante, tenho dentro de mim a linha inteira do tempo: o que veio do futuro, presente tornou-se; e o que foi, passado, pode estar aqui, revivendo, atual e livre das prisões e teias. Atualizado. Na linha do que desejava revisitar. E não é possível. Mas, que pode ser, de novo, sempre: me atualizo, a cada instante. Quando em consciência e pergunta, presente, volto a mim mesma: trazendo 'o fogo de constelações extintas a milênios; e o risco, brevíssimo, que foi? Passou. De tantas estrelas cadentes.'
Bandeira chega assim, de memória; sem que me importe com a pontuação, a exatidão. No exato instante em que minha linha do tempo se atualiza num gesto: esse. aqui. agora.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Miados

Há algum tempo, não muito, prometi para a articuladora de uma ONG que trata da questão de animais abandonados que escreveria uma coluna para seu site, intitulada “Sobre bichos e homens”. Na época eu falara de um gato que aparecera à minha porta, miando desesperadamente, noite após noite. Tentei fazer ouvido de mercador; não deu: ele pertence a uma espécie que foi denominada “gatos que miam demais”. E eu, a uma espécie que escuta miados. Escutei.

Mas, não queria que ele entrasse na minha vida. Não queria me envolver. Não queria amá-lo. Não queria ser dona dele. Não queria tê-lo. Não queria vê-lo. Eu não o queria. Pensava em mim: não queria. E nem me ocorreu que ele, na verdade, pertence a si mesmo, à sua própria vida.

Nas noites inquietas em que o ouvia, pensava: lá vem de novo o gatuno... Vi que estava dando a ele um nome e que o nome embora pudesse soar adequado a um gato que estava roubando minha paz e meu sono, era um nome ruim, predador. Decidi procurar um nome mais adequado e de conotação mais positiva – dado que os miados dele já haviam invadido meu recolhimento.

Pensei que ele miasse de fome. Comecei a deixar uma vasilha com comida e água. Nada. Ele continuava miando.

Olhado de longe parecia arisco, um gato preto de belo porte, olhos verdes e movimentação inquieta. Resolvi descer de meu sossegado quarto no segundo pavimento – que estava sem paz sob os miados insistentes e pensei: se ele me deixar me aproximar, dou um jeito de cuidar dele. Não deu outra: chamei, fiquei parada olhando e lá veio ele, de leve, chegando aos poucos, como os gatos sabem chegar. Roçou minha perna como fazem nossos gatos de estimação, próximos, conhecidos; íntimos até.

Subi danada da vida, pois estava fisgada. Com duas gatas que são uma história à parte eu não queria novo gato! E agora lá estava eu pensando nele – o gatuno! Não. Já resolvera que não seria um nome pejorativo. E então o nome veio, claro, limpo, bonito: Petrônio. O belo gato preto. Ganhou, assim, nome nobre: do árbitro das elegâncias romanas, na corte de Nero.

Na noite seguinte desci com minha sobrinha, colocamos Petrônio na caixa de uma das gatas (que usamos para transporte). Deixamos preso, com comida e água. Dentro de casa. Ele continuou miando – tanto quanto miava lá fora.

Escutei até certa hora, depois dormi. Não sem antes notar que se os miados dele lá fora me incomodavam, agora, cá dentro, deixavam um calor no meu peito, querendo ser alegria – ou, alegria sendo.

Dia seguinte, levei-o à veterinária. No exame ele se comportou otimamente: nenhum miado, nenhuma queixa enquanto era tocado, apertado – pra ver se tinha alguma dor. Nada. Nenhuma. Voltou vacinado, vermifugado, de banho tomado e com data marcada para a castração. Ah, sim, claro: seria castrado, não só pra se tornar mais doméstico e parar de brigar na rua – como depunham seus arranhões – mas, principalmente para não continuar a povoar o mundo de gatos abandonados que miam à noite interrompendo sonos. Sensíveis ao sofrimento.

Preso em casa, pra se acostumar a um lar, Petrônio se comportava bem. Se espreguiçava ao sol. Comia. Dormia. Ronronava. Miava.

No primeiro dia fez um rebosteio na caixa de areia, sobre o jornal: fez as necessidades no jornal, espalhou a areia. Demos risada: Petrônio era caipira, não sabia usar o banheiro. E então ele surpreendeu: no dia seguinte já o usava com maestria!

Mas, miava, miava... miava; de dia e de noite. Parava quando eu me sentava ao lado, conversava com ele, dava um cafuné. Mas, daí a pouco lá estava ele, de novo, miando. Conclui que ele de fato pertence à espécie de gatos que miam demais!

Feita a castração e passados os dias de repouso, deixamos a janela aberta. Ele saiu, andou lá fora, voltou. Como fazem nossas gatas. Passamos a deixar a janela aberta. E... zás! Petrônio saiu e parecia que não voltaria mais. Dois, três dias... e lá estava ele, na madrugada, miando debaixo da janela. De novo! Fiquei irada. Cobri a cabeça com o travesseiro, prometi usar tampões nos ouvidos. Nada adiantou. Desci, abri a janela. Ele entrou. Fiquei olhando, sem falar nada. Coloquei comida. Comeu. Bebeu água. Convidei-o a ir embora. Saiu.

Ás vezes deixo comida na janela. Ele nem come. Mia. De vez em quando desço, falo com ele. Dou comida. Outras, ignoro: pois que mie! É seu mecanismo de chamar, de dizer quero atenção, tou aqui, e coisa e tal. Quando tou afim, desço, converso, rio. Desse gato maluco.

Tentamos achar uma casa pra ele: não deu certo. O pretendente mais forte, amigo de minha sobrinha, foi interditado pela mãe, que vetou a adoção.

Achava – e ainda acho – que num lugar novo, onde ele não estivesse acostumado a vadiar, poderia tornar-se um gato caseiro. Tentei que minha sobrinha o levasse para o sítio; não aconteceu.

Por vezes é minha filha quem o acolhe: abre a porta, põe comida; acompanha os movimentos dele – rolando pelo chão, curtindo a casa, a barriguinha cheia, o aconchego. Às vezes escuto: ela falando com ele. E então, vai embora.

Ficou assim, nossa história com Petrônio: um amigo boêmio, que chega de madrugada, faz serenata. Se abrimos a porta ele entra, mata as saudades, se abastece com um pouquinho de humanidade. E vai embora. Por vezes recebe apenas comida. Se não abrimos a porta ele se vai, até uma próxima volta. De minha parte, ainda que capturada pelo afeto deixo que ele siga. E me torno um pouco mais livre.

Assim. Que nem ele.

Ah, antes que me esqueça de dizer: Petrônio tornou-se meu gato predileto. Representante de uma nova espécie de amor, livre e tardio, da maturidade.

O projeto com a ONG não vingou. Mas, a escrita sobre bichos e homens está rolando assim: livre, soltinha. Com leveza, poesia. E prosa.

Inda agora escuto: Petrônio mia, lá fora. Com licença: estou indo abrir a janela! rsrsrs

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Prosa Poética - poesia sem lugar

Foi há muitos anos. Quase trinta. Escrevi um conto – que não era bem um conto. De pontuação estranha. Não fazia jeito de escrita institucionalizada. Inscrevi num concurso – na Academia Municipalista de Letras de Belo Horizonte – e ganhou... menção honrosa.
Tinha também um livro – do qual o conto que não era conto fazia parte: Pierrô sem máscara – um dedo de prosa poética. Inscrevi pretendendo um financiamento da Coordenadoria de Cultura de Minas. Foi aprovado. Editora e livraria querendo publicar. Mandei um exemplar pra Adélia Prado, pra ver se ela prefaciava. Devolveu, disse que não: o editor dela não permitia prefaciar.
Li, reli. Dentro de mim, algo decidiu que não. Era preciso viver mais.
Um tempo depois levei a um editor, no Rio. Ele disse que não: seria difícil editar porque não era poesia e não era prosa, seria difícil enquadrar, encontrar lugar onde colocar, estante.
Fiquei assim pensando que prosa poética – até então eu não ouvira esse termo, nem vira aquele intento – não tinha lugar. Mas, poesia é mesmo essa coisa sem lugar, que cabe em toda parte, no dentro, no fora. Sua natureza talvez seja mesmo esta: a do improvável, sendo, dando sentido ao tudo, ao nada.
Hoje resolvo revisitar. Não o tempo que o tempo não se revisita. Mas o propósito, o intento, a escrita. Gosto de não ter publicado. De ter escolhido... viver mais. Ainda quero, viver mais. Assim, fisgada pela poesia. Que quando não tem deixa aspereza demais. No texto. Na prosa. Na vida.
Começo a recontar. Contos que não são contos. Prosa que não é prosa. Poética. Poesia.
Encontrará, talvez, lugar na estante? Importa mais o lugar interno: esse onde se aloja a poesia, de onde ela brota, onde ela mora e se aninha. E se há lugar, no dentro, então haverá no fora. Que é só espelho, reflexo. Projeção. Projeto: prosa poética. Poesia sem lugar. Na estante. Cabível. Em espaços mais vivos. Talvez. Menos estanques.
Quero encontrar a página. Aberta. Essa que fica ao lado, quando me deito.
Ruminando silenciosa. Quando de mim me perco. E me colhendo de volta. Quando a ela, retorno.
Será a alma que fica ali, espiando, se esgueirando, à cata da poesia? Ou será ela, a poesia, a própria alma, ali, esgueirada, se espichando no espio?
Poesia tem assim esse gosto de pergunta fresca. Sem resposta. Calando tudo. Que nem beijo. Arfado.